domingo, 9 de mayo de 2010

Lembranças de vovó




Fecho os olhos e volto no tempo. Tenho 10 anos de idade. Estou brincando com outras crianças em uma rua de terra, em Lorena, uma cidade do interior de São Paulo. Minha vó grita e o cachorro late e sei que que é hora de entrar para almoçar. Não sem antes lavar as mãos e ajudar a colocar a mesa. Saboreio uma comidinha simples e deliciosa: arroz, feijão e bife acebolado feitos num fogão a lenha, e acho até gostoso salada de chicória temperada com limão. Não tem ninguém que faça uma salada de chicória igual a Vó Alzira. Depois do almoço escuto minha vó repetir o seu ditado preferido: “serviço de criança é pouco, mas quem perde é louco” e assim sei que tenho que ajudar a arrumar a cozinha. Assitimos juntas alguma novela do Vale a pena ver de novo, e lá vou eu novamente brincar na rua, jogar queimada com bola de meia, esconde esconde, pular corda, ver os meninos empinarem pipa ou sem que vovó saiba brincar de salada de frutas, em que o cardápio é beijo, abraço ou aperto de mão. A tarde passa rápido é hora do café passado no coador de pano, se tenho sorte será acompanhado de um bom pedaço de bombocado de fubá quentinho e se quiser tem também a melhor paçoquinha do mundo, feita num enorme pilão de madeira e acompanhada de banana.
Chegou as férias e posso ficar uma semana na casa de vovó, sem papai, mamãe e os meus irmãos. Vendo televisão na sua enorme e confortável cadeira de balanço. Brincando no quintal repleto de árvores e com uma banheira antiga, algo que sempre me pareceu surreal, por que uma banheira no quintal? Mas ao mesmo tempo muito legal, essa banheira se transformava em tantas coisas em minha imaginação, podia ser uma nave, uma cama, um caldeirão mágico e até uma banheira. Brincar, brincar e brincar na rua cheia de crianças ou com meus primos que vejo tão pouco durante o ano. A noite sempre tem histórias no quartão de sua casa, ela me conta do tempo que era moça ou sobre as façanhas do meu vovô Silvio, um homem bom e corajoso que que se alistou aos 17 anos para servir o país numa Itália em tempos de guerra, ou alguma história da minha mãe ou de alguma outra tia. Histórias que nem me lembro mais, mas eram contadas por um senhora bonita, elegante e batalhadora que criou seis filhas e um filho com muita luta e dignidade e ajudou no que pode na criação dos netos.
Uma saudade profunda e dolorida faz com que me sinta feliz por ter essas imagens de minha infância e triste por não poder dizer mais a vovó o quanto a amava, o quanto a achava bela e fui feliz em sua casa.


Depois de uma semana difícil, numa cidade em que não conhecia nada, nem ninguém, prestando um concurso em que utilizei todas as minhas forças e coloquei toda a minha fé, uma experiência válida, por me mostrar o quanto sou capaz, e ao mesmo tempo injusta, porque não adiantava quanto esforço eu colocasse, o concurso já tinha a sua única vaga reservada para uma candidata específico, estava eu exausta no aeroporto esperando o voo que estava atrasado para voltar a Salvador. Resolvo dar uma olhada rápida na internet e vejo que uma prima minha coloca em seu orkut, “Luto. Saudades, te amarei para sempre” abaixo da foto de minha vózinha. Fico sem entender por alguns segundos até que a ficha cai. Minha avó morreu. Ligo correndo para minha mãe que não está em casa, pois tinha viajado para ir ao velório. Fico perplexa e não consigo me conter e sozinha desabo a chorar compulsivamente naquele saguão de aeroporto. Alguém vem e me oferece um copo de água. O embarque se inicia, levanto e sem perceber deixo cair meu RG no chão. Alguém me devolve. O voo estava cheio, e tive que viajar ao lado de um cara que não parava de falar, quando tudo que eu precisava era de silêncio, era que me deixassem chorar em paz.

Em Salvador, consigo falar com minha mãe que me explica que não havia me dito nada, pois eu estava no meio de um concurso de vários dias e a noticias iria me desestabilizar. Eu a entendo, mas sofro por não haver estado presente nesse ritual de despedida. Ela me acalma e diz que foi lindo, que todos os filhos estavam presentes e alguns netos e bisnetos e que teve choro, risos e cantoria. Ela me conta que o velório foi emocionante, e que a atmosfera foi de muita paz. Tranquilizo-me, mas ainda sinto por haver perdido esse momento.

Ela me conta que em seu retorno, de madrugada, um caminhão bate na traseira do carro em que estavam, e que o carro saiu da pista, ficou bem amassado, mas que eles não sofreram nenhum arranhão. Agradeço imensamente a Deus por ter poupado meus pais, pois posso lidar, não sem dor, com a passagem da minha avó, mas não estou preparada para perder meus pais. E possivelmente nunca estarei.

Vivo dias difíceis, mas surge uma brecha no trabalho e não penso duas vezes, de um dia para outro estou voando seis horas para passar o dia das mães com minha mainha.

Hoje estou em paz, feliz, realmente feliz por estar ao lado dela, de podermos viver esse luto juntas, de compartilharmos a lembrança e o amor que sentíamos por nossa amada Alzira Camoezi Gomes.

Agradeço a vovó por ter me dado uma mãe tão fantástica e agradeço a minha mãezinha pela oportunidade de ter convivido com uma avó que mesmo morando longe, durante toda minha vida sempre esteve presente.

Desejo que todas as filhas/os possam curtir imensamente suas mães e que todas as mamães possam curtir imensamente seus filhos, fisicamente ou na lembrança e que Deus abençoe muito essa relação tão divina que é ser mãe e ser filha/o.

Felicidade, paz e amor a todos que aqui passarem.
Besosss
Quel

19 comentarios:

Laís D'Ponte dijo...

Ô, madrinha, que lindo.
Sabe, Dona Alzira também dizia esse ditado à minha mãe que o repassava a mim.

Eu tô me lembrando quando, bem pequenininha, passei o Natal em Curitiba com vocês e a chamava de vô.

Madrinha, sua dor é grande, eu sei. Mas saiba que te amamos. Quero sempre ver seu coração cheio de paz.
Força.

Saudades sempre!

Elika Takimoto dijo...

Raquel,

Nem me fale dessas perdas, mas sim, escreva sempre sobre elas.

Beijos e parabéns pelo texto.

Ramosforest.Environment dijo...

Lindas lembranças ficarão. Quando minha avó faleceu, eu, também, estava distante a trabalho. Sei como é.
Visite meu blog:
http://ramosforestenvironment.blogspot.com/2010/05/dia-das-maes.html
Abraços
Luiz Ramos

Raquel dijo...

Lala querida,

Eu me lembro bem desse natal em ctba, que delícia. Temos fotos! Qualquer hora escaneo e te mando.
Fica tranquila, que nesse momento junto a minha maezinha to em paz. E porque sei também que vovó merecia esse descanso, já era sua hora.
Obrigada pelo amor e pela força.
Beijossss

Raquel dijo...

Oi Elika, todos nós passamos perdas em alguns momentos da vida, e esses momentos são importantes para reavaliarmos nossa caminhada e dar valor aqueles que estão juntos a nós.
Obrigada pela visita!
Bsossss

Raquel dijo...

Oi Luiz, obrigada peloc arinho, estou indo visitar seu blog.
Bsosss

Lau Milesi dijo...

Ai Quel, nem fale. Lembro tanto da minha querida e agitada avó. E como você, meus filhos também vivem relembrando os bons momentos que tiveram com minha mãe, que também virou estrelinha. Tenho certeza que a sua vovó deve sentir muito orgulho, ao saber que deixou esse lastro de saudade aqui na terra e uma neta tão carinhosa como você. Receba minha solidariedade, minha linda amiga. O céu ganhou mais uma estrelinha, Quel.Um beijinho pra você e pra sua mãe.

Crônicas Conquistenses dijo...

Perdas, lembranças e novos caminhos. A vida é movimento e, como tal, requere rompimentos e adaptações - o que, quase sempre, vem com alguma dor.
Raquel, obrigado pela visita e o comentário no "crônicas". Gosto dos seus textos e aguardo ansioso por novas postagens.
:)

Ricardo Calmon dijo...

Huhuuuuuuuuuuu,Quel amadérrima,amei receita de biza sua uau!em dieta braba que estoy chicória em salada é tudo!
Sôdades abissais e pancreáticas linda miga minha!

te amuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu
pessoaaaaaaaaaaaaaaaaaa
Ricardo MATER!

VIVA LA VIDA

Raquel dijo...

Oi Lau,
Realmente o céu ganhou mais uma estrelinha. Obrigada pela solidariedade e carinho.

Besosss

Raquel dijo...

Oi Arnaldo, é isso ai, a vida é movimento, alguns geram prazer, outros dor, mas se queremos, sempre para nossa evolução.

Assim que puder estarei postando mais.

Beijos

Raquel dijo...

Ricardo Mater! Espero que estejas bem. Se cuida muito, porque eres muy, muy importante!!!
Amo-te!
Besossss

ESMERARDINHA dijo...

OI AMIGA
Sinto muito por nao ter tido tempo para falar com vc esses dias, sinto mais por vc ter perdido sua vozinha, sei que nao eh nada facil! Mas força amiga, força mais ainda para sua mae, por que o mesmo sentimento que vc tem de perde-la, seguramente Da Simone tb deve em relacao a mae dela!
Desculpa minha ausencia, meus verdadeiros sentimentos, queria poder estar ai, junto de vc para te dar força!
Adorei o texto!
Se cuida e força!
Te amooooo

Brisa Teixeira dijo...

Raquel, querida!!!
Como você já sabe minha vózinha também se foi faz pouco tempo. Hoje fui pra natação, que fica perto da casa dela, e a passadinha ali, pouco tempo atrás, era certeira para dar um cheirinho nela. Hoje, olhei a casinha de longe, vi suas janelas fechadas e segui o meu caminho com aquela dor no coração que vai e volta.
O seu texto me fez pensar mais ainda nela e o que me conforta é saber que, assim como você, tive uma infância linda ao lado dela. E quando vem essa lembrança, as lágrimas dão lugar ao sorriso e acalma o coração.
Que a sua dor neste momento seja confortada com todas as lembranças boas que ela te proporcionou.

Grande abraço e força na sua caminhada
Brisa

Ana Guimarães dijo...

Quelzinha, quanta emoção! Estou aqui me derretendo... Não conheci minhas avós, mas imagino sua tristeza.
Um abraço bem apertado, amiga!

Djabal dijo...

Minha querida amiga, acabo de ler suas notícias. E antes um pouco disso, estava navegando e encontrei algo que serviria para dizer o que sinto, e não consigo. Tomo a liberdade de colocar aqui, para que você reflita, e encontre alguma alegria, sem perder o seu silêncio. Besitos.

"When the man sleeps,
his soul talks to the angel,
the angel, to the cherub,
how beautiful it is for those who understand it,
how absurd for those who ignore it "

(Maimonedes, Misderected's Guide 1190)

Salete Cardozo Cochinsky dijo...

Querida Quel
Fiquei tanto tempo envolvida com trabalho + atenta ao que se passava com meu irmão e família que não sabia que já estava morando no Brasil.
Passei aqui, vou copiar o texto para ler depois e para te dizer que minha casa será tua refência quando quizeres vir a Porto Alegre.
Esteja plena e feliz em teu País de origem, cidadã do mundo e que possas agora vislubrar e desfrutar os louros do que plantastes e cultivastes nesses anos de estudo.
Beijos
Salete

Salete Cardozo Cochinsky dijo...

Então: compartilhamos de lembranças de uma cultura e situação um pouco diferente de quem sempre viveu em "grandes cidades", a educação e os valores que eram passado pelos adultos para as crianças e jovens.
As boas lembranças são ainda e somam para nosso bem.
A cada dia, a vida nos apresenta novos desafios e é lá daquele tempo, que buscamos os recursos para resolver o que é de cada momento.
Beijos
Salete

Marcelo dijo...

As vezes vejo seu blog, mas ainda não tinha visto o que escreveu da Vó. Ainda não consegui voltar em sua casa quando estou em Lorena. Você me fez lembrar um pouquinho de minha infância também, não pude conter as lágrimas novamente assim como todas as vezes que lembro dela...
Saudades de você, prima, até um dia que o destino puder fazer nos encontrar.